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Vítima da violência urbana, deficiente visual muda a rotina de trabalho e passa a vender balas de gengibre pela cidade

Ele perdeu a visão após ser agredido em um assalto.
20/02/2019 15h07
Foto: Rachel Pinto/Acorda Cidade
Foto: Rachel Pinto/Acorda Cidade

Rachel Pinto

A bala de gengibre virou sobrenome e hoje é a marca registrada do deficiente visual “Eliel da Bala de Gengibre”. Morador de Feira de Santana, ele é conhecido por onde passa, especialmente no centro da cidade, nos ônibus do transporte público e também por ser ouvinte assíduo dos programas de rádio da cidade.

Eliel trabalhava como rodoviário em Salvador, quando há 14 anos foi assaltado no ônibus e gravemente agredido nos olhos pelos bandidos. Tentou reagir a situação, levou várias coronhadas e em consequência disso perdeu totalmente a sua visão. O sentimento de revolta veio em seguida, assim como a necessidade e enfrentar uma nova rotina e uma nova vida sem o sentido da visão.

“No começo não foi nada fácil. Eu fiquei muito revoltado. Tinha uma rotina muito intensa de trabalho e foi um recomeço iniciar na escola de cegos e reaprender várias coisas sem enxergar. Não foi fácil, mas para Jesus nada é impossível. Agradeço a Deus, a pró Marlene, professor Eurides e todos aqueles que me deram todo apoio na época. Fui me adaptando e em seguida resolvi vender as balas de gengibre”, contou em entrevista ao Acorda Cidade.

Balas de Gengibre

A escolha de circular pela cidade inteira vendendo balas de gengibre, segundo Eliel foi motivada pelo fato de muitas pessoas apreciarem o produto, ser um tipo de doce mais natural e com preço acessível para os clientes. A bala tornou-se sobrenome, marca registrada e Eliel entrou para o rol das figuras populares da cidade.

O produto que faz bem para a garganta é muito bem aceito por todos e já tem até propaganda na rádio. Para Eliel, a propaganda é a alma do negócio e divulgar o seu trabalho lhe deixa ainda mais satisfeito e com vontade de continuar.

“O negócio fica mais bonito e mais organizado com a propaganda. Eu pego as balas na distribuidora e vendo nas ruas e nos coletivos o pacotinho por R$ 1. O pessoal compra bastante e eu me sinto muito bem com os meus clientes. Eu trato muito bem meus clientes, peço a Deus que os proteja e agradeço por tudo. Por quem compra e também por quem não compra e a vida sempre continua”, declarou.

Vítima da violência urbana

Com já dissemos, Eliel foi vítima da violência urbana quando ainda trabalhava como rodoviário em Salvador. A perda da visão, não impediu que situações de violência se repetissem em sua vida e ele relata que depois que começou a vender as balas já foi assaltado várias vezes em Feira de Santana. Durante o último assalto, levaram de Eliel, o celular e até o radinho que era seu xodó. Ele disse que o carregava pendurado no pescoço ouvindo a programação das rádios e era sua companhia durante todo o dia de trabalho.

“Eu até acho que podem ser as mesmas pessoas que me assaltam repetidas vezes. Porque não tem cabimento. Eu já fui assaltado tantas vezes que até perdi a conta. Já me levaram celulares, dinheiro, o rádio e até a baleira. Já passei por muito sufoco, mas é importante nunca perder a fé. Porque quem tem fé em Deus e está sempre pensando positivo e nunca cai. Eu não desisto de vender minhas balas nem em viver com a comunidade”, comentou.

Dificuldades com a acessibilidade

Além de estar vulnerável à violência, diariamente o vendedor de balas gengibre sofre com as dificuldades de acessibilidade na cidade. Ele comenta que muitas vezes se sente em um labirinto ao andar pelo centro de Feira de Santana e precisa o tempo inteiro ficar atendo para não cair, não esbarrar em pessoas, sacolas e carros de mão.

Grande parte dos passeios e calçadas de Feira de Santana é feita de pedras portuguesas. Essas pedras facilmente se soltam, abrem buracos e são verdadeiras armadilhas tanto para Eliel, como para quem enxerga, além de cadeirantes e pessoas com outros tipos de necessidades especiais.

“É uma tristeza caminhar pela cidade, especialmente no centro. Os passeios não são finalizados, não tem pista tática, as pessoas não respeitam nada. Colocam de tudo em cima das calçadas. Isso dificulta o ir e vir. São muitos obstáculos todos os dias e uma vez eu caí em um esgoto, me machuquei com um ferro que até hoje eu tenho a cicatriz”, relatou.

Superando as cicatrizes

A cada dia que sai para vender suas balas de gengibre, Eliel tenta superar as cicatrizes das quedas, da perda da visão, dos assaltos e busca vencer toda a raiva que quer se instalar em seu coração - que às vezes se ensaia para ficar endurecido. O incentivo dos amigos e dos clientes é fundamental para que ele siga em frente. Entre as figuras populares mais conhecidas da cidade, o vendedor mantém a sua popularidade no trato com as pessoas e exemplo de perseverança.

“Peço sempre força a Deus e muita paciência. A fé é sempre muito boa e a vida segue seu curso”, concluiu.

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