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Crianças e adolescentes do Conjunto George Américo encontram na música novas oportunidades de vida

O Pra pra tu conta com o apoio da Comunidade Cristã Shalon Adonai, o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e a Polícia Militar (PM).
11/09/2017 08h04
Foto: Arquivo Pessoal

Rachel Pinto

Quando 73 crianças e adolescentes decidem não fazer parte de índices de violência e não protagonizar notícias trágicas e ruins, o barulho é grande. Então a ociosidade dá lugar ao som de tambores e timbaus e toda essa energia é concretizada no projeto de percussão denominado “Pra pra tu: Tambores pra Deus”, que acontece no Conjunto George Américo, em Feira de Santana.

Foto: Arquivo Pessoal

A iniciativa, que nasceu há 32 anos de forma independente e funciona sob a coordenação do professor Ivan Bahia, conta com parceiros e apoiadores como a Comunidade Cristã Shalon Adonai, o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e a Polícia Militar (PM).

Foto: Arquivo Pessoal

Os ensaios acontecem no espaço da igreja e participam crianças e adolescentes de 7 a 17 anos. O som dos instrumentos ecoa como um grito de liberdade e mudança, e a vontade de transformação da realidade pode ser vista a cada movimento, a cada batida e nas expressões dos participantes.

Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Ivan Bahia, de 42 anos, que há 30 anos trabalha com música e participa do projeto desde o início, conta como nasceu o “Pra pra tu”. Para ele, o projeto atua numa perspectiva de mobilização social e novas oportunidades.

Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

“Desde muito cedo que eu trabalho com música. O projeto nasceu a princípio de forma independente. Via muitos jovens envolvidos com drogas e comecei a pensar de que forma eu poderia ajudar para mudar essa situação. Então reunimos uma turma com o objetivo de resgatar esses jovens. Não tínhamos instrumentos e começamos criando com latas e panelas e ensaiando na praça. Depois, conseguimos ajuda da igreja e o projeto foi batizado oficialmente como “Pra pra tu” pelo pastor Ricardo. Também conseguimos o apoio do CRAS e atualmente estamos com 73 jovens ensaiando semanalmente no galpão da igreja”, explica.

Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Acompanhamento em diversas áreas

O projeto é aberto para toda as crianças e adolescentes de toda a comunidade do George Américo. A única exigência é que os participantes estejam frequentando assiduamente a escola. Todo o grupo e o seus núcleos familiares são acompanhados por profissionais do CRAS como pedagogos, assistentes sociais e psicólogos.

Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Os ensaios acontecem às segundas, terças e quartas-feiras, das 8h às 10h e das 13h às 15h30. Sempre no turno oposto à escola. O “Pra pra tu” frequentemente faz apresentações em eventos comunitários e em datas comemorativas e festivas da cidade. A última apresentação foi durante o desfile cívico do 7 de setembro.

Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

O professor Ivan afirma que um grande desejo é divulgar cada vez mais o trabalho do grupo de percussão e que os alunos possam se apresentar em eventos tanto em Feira de Santana, como em outras cidades.

“Já tocamos no Cuca, em festas do bairro, durante o 7 de setembro e até no Pelourinho, em Salvador. O objetivo é divulgar nosso trabalho em mais espaços e estamos abertos a convites. Só é necessário contrapartida com o transporte e um lanche para as crianças. O que queremos é tocar”, ressalta.

Foto: Arquivo Pessoal

Ao longo de tanto tempo envolvido com o projeto, Ivan também destaca a mudança de comportamento de muitas crianças e adolescentes e a melhora da autoestima. Segundo ele, muitas crianças chegam ao “Pra pra tu” muito agitadas e até tristes em decorrência inclusive de problemas vivenciados no seio familiar. Através do envolvimento com a música, esse contexto vai mudando e elas passam a ter mais disciplina, melhoram o comportamento, interagem com os colegas e fazem novas amizades.

Participantes

Lucas Martins Alves, de 17 anos, é um desses adolescentes que teve a vida transformada a partir das ações do projeto. Ele afirma que ficou mais disciplinado e comprometido com as atividades escolares e não falta a nenhum ensaio da banda de percussão. Além de ser músico do “Pra pra tu”, ele também é campeão brasileiro de jiu- jitsu e divide com alegria a sua experiência.

Foto: Arquivo Pessoal

“Estou no projeto há três anos e acho muito legal participar. Me ajudou muito no meu comportamento e no desempenho escolar. Com toda a interação, também comecei a participar das aulas de jiu- jitsu ministradas pela Base de Segurança Comunitária (BSC) da Polícia Militar (PM) e sou campeão brasileiro. Sonho em um dia ser professor de percussão, professor de jiu-jitsu e um grande atleta”, salienta.

Carlos Eduardo, de 17 anos, relata que suas escolhas têm sido motivo de alegria e orgulho para os pais. Além de membro do “Pra pra tu”, ele participa das aulas de jiu jistu e pensa em seguir a carreira na música.

“Muitos jovens aqui do George Américo falam que aqui não tem nada de bom para fazer. Mas tem sim, basta procurar. No início quando eu entrei, foi bem difícil aprender a tocar. Mas eu me dedico bastante e ensaio muito. Meus pais ficam felizes em saber que eu não estou fazendo nada de errado e participo de coisas boas”, completa.

Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Antes de conhecer o “Pra pra tu”, a adolescente Geisy, de 16 anos, conta que passava a maior parte do tempo em casa sem fazer nada. A decisão de integrar o projeto veio a partir do exemplo da irmã que já participava e lhe fez o convite. As mudanças promovidas através da música são motivos de comemoração para Geisy e toda a sua família.

Foto: Arquivo Pessoal

“Eu não fazia nada e achava que não tinha mesmo nada de interessante para fazer. Minha irmã já participava e então eu resolvi conhecer. Conheci e gostei. Toco o tarol e até já trouxe uma amiga para saber mais sobre o projeto. Eu vejo tudo isso como uma mudança boa e novas oportunidades. É um projeto que os pais e toda a comunidade precisam conhecer”, observa.

Apoio da comunidade

Grande entusiasta do “Pra pra tu”, Ivan Bahia revela que outro grande sonho do projeto é uma maior aproximação com toda a comunidade. Mostrar que a música é um instrumento de educação social e traz inúmeras possibilidades para a vida de crianças e adolescentes do George Américo. Além disso, outra coisa que o professor observa é um preconceito muito grande com relação ao bairro de pessoas de outros locais e sobretudo o estigma de que o George Américo é um local perigoso e violento. Outra vontade de Ivan é mostrar para a sociedade que o bairro tem muita coisa boa, caminhos e oportunidades do bem. “Queremos mais participantes para o “Pra pra tu” e disseminar essa proposta”, diz.

Foto: Arquivo Pessoal

Para o ‘maestro’ da percussão do projeto, não importa se não tiver instrumento para todo mundo. Se for necessário, eles inventam e reciclam. O importante é que existam interessados em participar. O batuque do “Pra pra tu” é movimento, é mudança constante e seu ritmo e compasso não podem parar.

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